CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




domingo, 19 de março de 2017

DIA DO PAI



Foto de Carlos Pereira




o poema mais puro habita em mim. por isso
sei-o de cor. o meu pai levava-me às
cavalitas porque era de noite e eu não via
onde punha os pés. o meu pai atravessou
o esteiro a nado, comigo às costas, porque eu
ainda não sabia nadar e o regresso a casa
era mesmo ali depois da outra margem.


Aveiro, 24 de Fevereiro de 2015

sábado, 25 de fevereiro de 2017

FRAGMENTOS


Foto de La Salete Pereira




FRAGMENTOS
Carlos Pereira


Palavras síncronas, modestas e audazes,
atravessaram a pauta metálica
de um bosque de teclas e cordas,
em vibratos aéreos,
tangidos por virgem sedenta de acordes de sémen,
no ventre primaveril de uma aurora prenhe
por astros aburguesados de cio.

Fragmentos marmóreos de um seio lunar,
alimentam os luzeiros trémulos
que hão-de guiar o barco universal
na libertação dos mastros e
das marés desconchavadas
de malditos mares.

Raízes ancestrais,
descem às profundezas aquíferas do mar Egeu,
dele bebendo e alimentando-se de estilhas
de barco adormecido no seu leito primevo,
na procura da ânfora guardiã
da sabedoria suprema de Hipócrates e
da celestial beleza de Helena, a divina rainha.

Aveiro, 11 de Outubro de 2016

In ”GRAPHEIN” Coletivo de Autores – Edições Vieira da Silva 2017

Publicado no Diário de Aveiro


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

AZUIS



Foto de La Salete Pereira




Dedico este poema à minha querida amiga poeta mágica dos azuis







AZUIS
Carlos Pereira



E os azuis emergem do silêncio
adocicado da noite e,
amanhece mais cedo nos teus olhos
e o poema voa tranquilo nas asas de um pássaro,
também ele azul,
imortalizado nos teus sonhos cromáticos.


E o teu olhar é um rio azul que dessedenta
os cansaços áridos do teu coração
entre as férteis margens do sonho,
onde navegas até ao mar em que o azul,
é a seiva do ar que respiras.


Aveiro, 2 de Maio de 201
Publicado ni Diário de Aveiro








terça-feira, 20 de dezembro de 2016

JUSTO É O CÉU


Foto de La Salete Pereira





JUSTO É O CÉU
Carlos Pereira


A flor murchou tão delicadamente
e os meus olhos abertos ficaram
tristes e, dolorosamente,
duas lágrimas deles brotaram.

Justo é o céu e o ímpar saber da natureza.
Livre é o pensamento na sua grandeza.


Aveiro, 18 de Outubro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro












sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A FORÇA DA RAZÃO



Foto de Carlos Pereira




A FORÇA DA RAZÃO
Carlos Pereira


Este mundo incrédulo, desavindo,
É como barco sem ancoradouro.
Todo o mister é bem-vindo
Como a pele quando vira couro.

Não há sol que tanto brilhe
Nem noite que tanto escureça.
Pelo longo caminho se trilhe
O que de melhor em nós se conheça.

Não sou príncipe nem reino, tenho!
Quando venço, repudio, a glória.
Carrego por vocação o pesado lenho
Contra toda a urdidura censória.

Que do bem ninguém se farte
E perante o mal não se amoleça.
Se pelo lado fraco a corda parte
É porque o mais forte não tropeça.

Se formos fieis a nós mesmos,
Urdiremos ufana bandeira.
Contra perversos feudalismos,
Seja a voz, gloriosa charneira.


Aveiro, 30 de Setembro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro







sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O VOO DO INSECTO


Foto de Salete Pereira



O VOO DO INSECTO
Carlos Pereira


Há uma brandura na mão que afaga o rosto da tarde,
e o silêncio da noite estelar irá comover-se com esse gesto.

O voo do insecto projecta-se na seara
através do vento tórrido de um verão de pedra,
e o suor desse esforço dessedenta o sangue aceso
das veias do solo rugoso e gretado,
cemitério incandescente, onde descansam os ossos
do nosso comiserador descontentamento.

Aveiro, 31 de Agosto de 2016
Publicado no Diário de Aveiro



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

MOMENTOS REFLEXIVOS



Foto de Salete Pereira






MOMENTOS REFLEXIVOS
Carlos Pereira


Na imperfeição do caminho há tortuosos contornos,
que são o troféu maior dos que vencem
com a veemência afirmativa da sabedoria.


Quando me detenho a olhar a natureza,
sou profundamente mais humano e imensamente feliz,
porque tudo me pertence nesse exacto momento.

Olhar, é ver muito para além de quem apenas vê
e se acomoda no entediante casulo de observador lôbrego.

Não temas percorrer o caminho sinuoso da montanha;
nela não tropeçarás.
Teme, sim, a tua marcha no caminho pedregoso,

ainda que de pequenos seixos e plano;
nele tombarás se teus passos não forem, inequivocamente,
invulneráveis e precisos.

A implacável solidão pode-nos gastar, pode-nos tombar;
corpos pendentes sobre um muro instável;
trajetória indomável do destino.
Sopro do vento a murmurar-nos memórias antanhas
e a prolongar a lentidão da noite na agonia das sombras.

A brancura da manhã adormece os meus versos
na sonolenta corrente do rio e, as palavras silenciosas,
ocupam o vazio entre a distância do alvor do teu sorriso
e o entardecer matizado pelo esplendor colorido de um amor indiviso.


Aveiro, 19 de Fevereiro de 2016
Publicado no Diário de Aveiro